Por Jaciara Cruz

O debate sobre o desenvolvimento de competências empreendedoras para a formação dos jovens brasileiros pode ser uma das principais contribuições a ser dada para melhorar a educação no Brasil.

A introdução dessas competências no conteúdo do ensino médio não visa formar uma geração de empresários de 16 anos, mas sim formar indivíduos que sejam proativos e criativos, capazes de criar suas oportunidades, seja em um projeto próprio, no emprego ou na vida pessoal.

Despertar a capacidade de realização não apenas empodera o aluno, mas também faz com que ele valorize mais o aprendizado e o conhecimento em si. Qual escola não desejaria mais alunos assim? Qual sociedade não desejaria mais indivíduos assim?

Já existem ações nas escolas que promovem o empreendedorismo. Iniciativas como grêmio, feira de ciências, projetos, e outras atividades desenvolvidas por professores que colocam em foco o protagonismo do aluno. Em 2016 o assunto teve destaque no âmbito político, tanto no guarda-chuva de propostas contidas na Reforma do Ensino Médio, quanto no Projeto de Lei em tramitação avançada no Senado, n. 772/2015. No primeiro caso (reforma do ensino médio), o tema é discutido na carga de conteúdo adicional, na área Ensino Técnico e Profissionalizante. No segundo caso, o PLS 772/2015, propõe a abordagem obrigatória do tema Empreendedorismo, de forma transversal no currículo regular das escolas. Se a abordagem parece distinta, em ambos os casos o sucesso estará na implementação adequada, e certamente são complementares.

De forma transversal, pode-se focar no desenvolvimento das competências empreendedoras, como trabalho em equipe, resolução de problemas, visão sistêmica, comunicação, protagonismo e criatividade. Como disciplina adicional, pode-se aprofundar temas especificamente voltados para a criação e gestão de novos negócios, como legislação e finanças para pequenas empresas, princípios contábeis, crédito e fontes de financiamento, sem esquecer das fundamentais práticas de desenvolvimento e validação de ideias no mercado, pois de nada adianta uma empresa bem estruturada com um produto ou serviço sem demanda. Seja como tema transversal ou disciplina adicional, para introduzir o conhecimento sobre empreendedorismo na formação básica do aluno de forma efetiva, alguns cuidados são fundamentais, propostos a seguir como pilares do empreendedorismo na escola. Os pilares apresentados a seguir foram criados a partir da experiência de iniciativas de empreendedorismo na escola da autora e colaboração de mais de 100 professores inovadores de escolas participantes.

Primeiramente, a Abordagem Prática deve ser premissa. Afinal, o objetivo é ensinar empreendedorismo, e não ensinar “sobre” empreendedorismo. Pode-se até contestar se é possível “ensinar” empreendedorismo, uma vez que o conceito está mais associado a uma atitude, uma ação, o ato de empreender, do que a uma teoria em que é possível discernir uma resposta “correta” de uma resposta “errada”. A abordagem prática na educação está diretamente associada ao desenvolvimento de projeto, em que o aluno efetivamente aplica, vivencia, experimenta o que está sendo ensinado. Assim, ao longo do desenvolvimento do projeto, pode-se ensinar metodologias desde ideação, estruturação de modelos de negócio, prototipação e validação, passando por conceitos de gestão e finanças, em paralelo com a aplicação destas metodologias nos projetos, proporcionando ao aluno uma experiência de aprendizado muito mais concreta.

Mesmo projetos que não envolvam a criação de novos negócios, mas permitam aos alunos exercitarem a capacidade de encontrar problemas e explorar soluções de forma autônoma favorecem o desenvolvimento de competências empreendedoras. Por exemplo, um professor de história que peça aos seus alunos para desenvolverem representações de determinados períodos relevantes, e permita a eles explorarem diferentes mídias, pontos de vista, formas de passar aquele conhecimento para o restante da sala, estará fomentando as competências empreendedoras de seus alunos. Poderá se deparar com apresentações em vídeo, aplicativos com quizzes, games ou jogos de tabuleiro, enfim, diversas soluções para a problemática de como passar aquele conteúdo.

Mas então qualquer projeto irá promover o empreendedorismo na escola? Se por um lado a realização de projetos é premissa, por outro não é suficiente. Sua implementação precisa ser concomitante aos demais pilares.

Há que se observar também a abrangência do conceito, tendo em mente que o incentivo ao espírito empreendedor necessita de “Multidisciplinaridade”. As escolas devem incentivar o desenvolvimento pelos alunos de projetos que integrem diversas áreas do conhecimento (não de maneira modular e sim sistêmica). Implantação de projeto de TCC (trabalho de conclusão de curso) interdisciplinar, com viés empreendedor, é um ótimo começo, pois promove a integração academia/ciência com o mercado.

Outro pilar se refere ao “Protagonismo do Aluno”. Individualmente ou em grupo, o aluno deve determinar o seu próprio projeto, mesmo que a escola tenha proposto uma temática geral. Quem vai ser beneficiado pelo conhecimento precisa desde o início ter o poder da escolha e de tomada de decisões. Caberá, assim, aos professores orientadores questionar pontos sensíveis da ideia, sem causar insegurança, mas estimulando os estudantes a buscar ativamente alternativas e suas próprias respostas.

Para não entrar em conflito com a proposta em que o conhecimento é construído pelo aluno, ao invés do conteúdo específico de uma apostila, o método de avaliação deve ser mais amplo, feito de forma sistêmica – dando menos peso para conteúdo e mais peso às competências trabalhadas.

Com o despertar do protagonismo, o estudante também poderá se tornar mais crítico, por exemplo, sentindo-se a vontade para fazer reclamações ou sugestões muitas vezes em público e interrompendo a aula. Como lidar com este aluno? A valorização do respeito nas relações é a chave, tanto o aluno precisa ser respeitoso com o professor e colegas quando se coloca, quanto o professor deve respeitar o ponto de vista do aluno, colocando-o em consideração. Não é necessário ter uma resposta pronta, mas avaliar e dar algum retorno ao aluno, seja em concordância, seja explicando o porquê de um retorno negativo, ou um meio termo. Ao perceber que sua opinião é considerada, ainda que tenha um resultado diferente do que espera, o aluno se sente mais conectado à escola.

O próximo pilar, “Professor Facilitador”, tem muito a ver com o que foi escrito linhas acima. Não há mais espaço para uma cultura escolar na qual o docente é um sujeito intocável a quem os alunos devem absorver a fala e repeti-la simplesmente. Em especial quando falamos de empreendedorismo, em que o sucesso depende muito mais de resiliência e capacidade de adaptação do que de respostas certas ou erradas. Antes de ser um especialista no assunto e dono da verdade, o professor assume o papel de facilitar o aprendizado do educando. Isso significa sugerir temas abertos, inspirar e dar sugestões aos alunos para melhores resultados em suas pesquisas e não impor sua visão de qual seria o melhor caminho. A adaptação pode ser dolorida, mas depois o professor se sente até mais livre, permite-se arriscar conteúdos interessantes em sala mesmo que não seja um expert, e livra-se do peso de ter que saber sempre mais do que os seus alunos sobre todos os temas das suas aulas.

Focando no ambiente externo e como ele se relaciona com a escola, o pilar “Integração com a Sociedade” também é essencial para um debate produtivo sobre empreendedorismo na escola. Tem que existir uma ponte com o mundo lá fora, uma troca de conhecimento e experiências com a comunidade e pessoas do mercado. A relação com a comunidade pode apresentar problemas reais em que o conhecimento do estudante pode ajudar, dando mais sentido para o ato de estudar. E a troca de experiências com profissionais do mercado enriquece o repertório do aluno e ajuda-o a construir uma visão de futuro. Estes profissionais podem inclusive ser mentores ou conselheiros de projetos desenvolvidos pelos alunos, em parceria com o professor, além de co-avaliadores.

O debate proposto aqui urge por ser aprimorado e discutido com profundidade em meio a possível mudança na grade curricular do ensino médio, que afeta também o ensino fundamental e superior. É uma excelente oportunidade para construirmos um modelo de educação com o qual o aluno se identifique e se sinta protagonista de seus próprios passos e destino.

Jaciara Cruz é fundadora e diretora geral da Ideias de Futuro, consultoria de inovação social idealizadora de projetos e programas de empreendedorismo e inovação como o Startup in School, realizado em parceria com o Google e o Centro Paula Souza.